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Feminismo, Casamento e Fé

“Esposas, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor. Pois o marido é o cabeça da esposa, como Cristo é o cabeça da igreja. Ele é o Salvador de seu corpo, a igreja. Assim como a igreja se sujeita a Cristo, também vocês, esposas, devem se sujeitar em tudo a seu marido.”


Efésios 5: 22-24


Não me recordo de um tempo em que as discussões sobre feminismo, empoderamento feminino, combate ao machismo, feminicídio e misoginia foram conduzidas com tanta importância quanto atualmente. 

Bem, apesar da mulher da não ser reconhecida em pé de igualdade com os homens nas sociedades e épocas em que a Bíblia foi escrita, e esse contexto sócio-cultural ser evidente nas Escrituras; o cristianismo repudia toda e qualquer discriminação à qualquer pessoa; a despeito de sexo, religião, classe social, etc…


“Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada.”

Pacto de Lausanne, 1974


Deus não faz acepção de pessoas, conforme afirma o Apóstolo Paulo à igreja de Roma (Romanos 2:11). Por isso, não há a necessidade de se abraçar machismo ou feminismo quando se entende e se vive o evangelho do Jesus de Nazaré, que valoriza e trata com dignidade todas as pessoas.


O propósito dessa reflexão não é se aprofundar nos temas acima, apesar da relevância e da necessidade de discuti-los com atenção, mas sim refletir sobre como devemos conciliar o texto bíblico lido com esse momento de emancipação e empoderamento feminino. Isso porque, a leitura do texto sem entendimento do contexto gera repúdio e manifestações contrárias, principalmente por parte das feministas. 


Vale ressaltar, antes de analisarmos o texto, que a Bíblia não tem a intenção de ser “aceitável” à qualquer militância, uma vez que seu propósito é revelar amor de Deus e a salvação em Jesus Cristo, restaurando no ser humano tudo o que que é afetado pelo pecado. E tudo isso está acima de qualquer militância em prol de qualquer grupo específico.


Antes de dizer quer o Apóstolo Paulo e, consequentemente a Bíblia, é machista, é necessário analisar o contexto bíblico.


O texto está dentro de um bloco em que o Apóstolo está instruindo a igreja de Éfeso sobre os novos padrões de relacionamento que cristãos  devem estabelecer. Ele trata sobre exemplos de submissão cristã nesses novos relacionamentos:

  • mulheres que se sujeitam aos maridos (v.22);
  • Filhos que devem obedecer os pais (6:1);
  • Escravos que devem obedecer os senhores (6:5)


Até aqui, talvez algumas mulheres podem estar muito incomodadas por serem utilizadas como exemplos de submissão ao lado de filhos (provavelmente menores) e escravos. No entanto, não podemos achar que a “submissão/sujeição” que o Apóstolo recomenda às esposas, às crianças e escravos seja uma outra palavra para inferioridade. 


À luz do ensino do Jesus de Nazaré, esposas e maridos; filhos e pais; escravos e senhores; tem valor e dignidade iguais diante de Deus, apesar de papéis diferentes. Logo, o conceito de submissão não é subserviência; nem o conceito de autoridade, tirania.


Além disso, a sujeição proposta para os novos relacionamentos não é apenas para esposas, filhos e escravos; mas sim para todos os cristãos. Esse bloco de Efésios começa com a seguinte recomendação: 


“Sujeitem-se uns aos outros por temor a Cristo.” v. 21


Ou seja, viver o cristianismo como proposto pelo Evangelho do Jesus de Nazaré é viver em mútua sujeição (uns aos outros, os primeiros serão os últimos, o menor se torna maior, etc…). A falta de entendimento e da prática desse princípio é o que tem destruído não apenas as relações na comunidade de fé, como também as familiares.


Com relação ao dever de submissão das esposas sugiro leitura de 1 Coríntios 11:3-12 e 1 Timóteo 2:11-13 e veremos que a ênfase recai sobre o modo e propósito da criação de Eva. Por isso, para Paulo a submissão à autoridade do marido não é apenas aplicação de um princípio cultural, mas um restabelecimento da intenção original da criação. 


Mas como o próprio apóstolo Paulo enfatiza, para entendermos essa relação de autoridade do marida e submissão da esposa; é fundamental olharmos para o Jesus de Nazaré. 


É do cabeça que provém as condições de vida para o corpo. Logo, essa autoridade expressa mais cuidado do que controle, mais responsabilidade do que domínio, afinal “…Ele mesmo é o salvador do corpo.”. Essa afirmação nos mostra que essa relação não é apenas de Senhor, mas principalmente de Salvador. 


Assim, a submissão não é nenhum absurdo ou violação dos direitos humanos,  porque ela não é uma obediência impensada, ou subserviência, mas sim uma grata aceitação do cuidado daquele que se entrega por amor. 


Sim! Se a ênfase para a esposa é a submissão, para o marido é amor, o amor sacrificial; pois ele deve amar a esposa como Cristo amou a igreja. E como Ele amou a igreja ? Ao ponto de morrer por ela. 


O evangelho ele desconstrói qualquer associação de autoridade e poder e, se em algum sentido, autoridade tem a ver com poder, é poder para cuidar e não oprimir; para servir e não para dominar, para facilitar auto-realização e não para frustra-la. 


Sobre esse assunto John Stott comenta: 

“… no império do Servo-Messias crucificado, os súditos respeitam uma ordem de liberdade e igualdade em que qualquer pessoa ajuda a outra,  aparentemente renunciando os direitos possuídos mas,  na realidade exercendo o direito de imitar o próprio Messias.” 


Importante ressaltar que aqui Paulo descreve o ideal cristão de esposa e marido, submissão e amor sacrificial, e não os terríveis desvios de conduta que tem gerado tirania na relação. Se submeter aos desmandos de tiranos não é submissão; é subserviência. 


O entendimento desse princípio de submissão e amor é um processo, as vezes lento e as vezes doloroso, como comenta John Stott:


“… toda abnegação, embora seja o caminho do serviço e o meio para auto-realização, também é dolorosa…. No casamento há a dor do ajustamento, à medida em que o velho eu independente cede lugar para o novo nós interdependente."


O tempo de caminhada e vivência do Evangelho do Jesus de Nazaré nos ajudam a viver desse modo e experimentar a plenitude da proposta de Deus para o relacionamento conjugal. 



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